Solidão real na era virtual

Em um universo sem fronteiras em que há tantas possibilidades, vive-se a contradição do aumento da solidão

Por Ermelinda Ganem Fernandes / Adaptação Web Rachel de Brito

SOLIDÃO REAL NA ERA VIRTUAL

Quem sou eu e o que faço aqui? De onde venho? Para onde vou? Até hoje, ainda buscamos respostas para essas perguntas. O homem é o único animal que conta a sua própria história, que está sempre se lembrando dos atos passados.

De acordo com Derrida (2002), é um “animal autobiográfico”, e essa autobiografia, a história de si, depois do pecado original, torna-se confissão, testemunho de um erro inaugural, uma dívida estabelecida entre criador e criatura.

Ao criar a sua história, questionando a sua existência, interpreta um mundo repleto de enigmas a serem decifrados. Cada resposta constitui um mito criado para tentar responder ao que não tem resposta.

Quando a criança olha no espelho e se surpreende com o seu próprio reflexo, surge o primeiro enigma, a primeira interrogação e a primeira exclamação, eu existo! Reconhece maravilhada que ela é ela. É quando Narciso olha para as águas do lago e se percebe.

O herói da mitologia nos representa, seres humanos, em sua eterna autopercepção. A busca especular é uma forma legítima de amor, sendo a busca pelo reconhecimento uma marca da nossa humanidade.

A partir da marca inicial do primeiro espelho, cada pessoa que passa em nossa vida vai deixando o seu reflexo. Sim, porque precisamos do espelho do outro para nos refletir e construir a nossa própria imagem.

A humanização se fundamenta no respeito e valorização da pessoa humana. Precisamos ter relações que confiram significado à nossa vida. Quando isso não é viável, nos dissociamos afetiva e emocionalmente.

O outro como espelho pode trazer aspectos negativos para a nossa experiência, como a inibição
que podemos ter, decorrente da nossa exposição, mas carrega inegável papel importante pelo fato de que o outro e as relações podem ser um veículo para o nosso autoconhecimento.

No teatro da vida, o outro pode entrar em cena constituindo o pano de fundo de determinados papéis, que muitas vezes sem saber delegamos para eles. Como nos diz o sociólogo da Sorbonne Michel Maffesoli: “Cabe a qualquer um reconhecer-se e comungar com os outros tipos sociais que permitem uma estética comum e que servem de receptáculo à expressão do nós” (Maffesoli, 2006).

Sem uma ligação com o próximo, portanto, aceito conscientemente, nós não conseguimos nos realizar plenamente. Mas será que no veloz mundo contemporâneo, com as suas relações virtuais, as pessoas estão conseguindo se conhecer (e reconhecer) ou estão solitárias, cada vez mais fechadas em seus casulos sem janelas?

Parafraseando Zeca Baleiro, na música Dezembros, será que os nossos olhos têm a fome do horizonte e a face do outro, no artifício das cidades contemporâneas, é um espelho sem promessas? Podemos, como o poeta, nos edifícios sem janelas do mundo contemporâneo, desenhar os olhos do outro?

Commodity do amor

O mundo contemporâneo tem vivenciado mudanças e transformações que, gradativamente, vêm alterando a estrutura e os valores da sociedade.

Estamos imersos no que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2001) chama de modernidade líquida. O mundo líquido é caracterizado pelo esgarçamento e  dissolução do tecido social, ou seja, a sociedade torna-se sem forma, paradoxalmente, como os líquidos.

É o mundo onde os adolescentes “ficam”, as relações amorosas se desfazem, a depressão assola as pessoas. Os casais trocam de amores como trocam de roupa.

As principais características da modernidade líquida são desapego, provisoriedade e acelerado processo da individualização; tempo de liberdade, ao mesmo tempo, de insegurança.

Há uma diversidade de tribos, com as suas diferentes éticas e estéticas. Há uma ansiedade generalizada e a vida passa a ser construída na fluidez da rede, na incerteza, no não saber. O acaso é uma força determinante.

A angústia gerada pelas contradições psicológicas contemporâneas, individuais e entre indivíduos, assim como a falta de um suporte ideológico capaz de dar sentido ao ser humano, fazem com que as pessoas acionem sistemas de defesa sólidos e legitimados pela sociedade.

As instituições, o trabalho, a religião e o capitalismo, muitas vezes, tornam-se verdadeiros templos de veneração, invadindo a vida do indivíduo, de uma forma psicologicamente tão profunda em seu alcance que se chega a questionar se existe efetivamente algo como “o indivíduo”.

A velocidade é a marca atual do espírito do tempo. Podemos ver Hermes, com as suas sandálias aladas, como o patrono da cibercultura.

Experimentamos uma nova relação espaço-tempo. Queremos falar com alguém e imediatamente nos conectamos ao outro. Ocorrem trocas simbólicas na internet, como uma segunda pele a reger a nossa vida. Estamos na era dos amores líquidos, termo cunhado por Bauman (2004) para referir-se às relações efêmeras, frágeis, descartáveis e superficiais que caracterizam o mundo pós-moderno.

Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água. Relacionar-se é caminhar na neblina sem a certeza de nada. Curtimos e deletamos pessoas na rede, como se fôssemos um pacote humano de delivery. O amor na atualidade entra na lógica do mercado e se apresenta como transitório, feito de conexões e desconexões.

Na commodity do amor há um excesso e deformação do indivíduo, cujo papel na sociedade fica definido primordialmente como consumidor. É como se o mundo fosse um grande shopping center, com prateleiras lotadas de atrações que são trocadas diariamente, inclusive as pessoas.

Há a emergência de um novo tipo de consumo subjetivo, emocional ou experiencial, muito mais voltado para a satisfação do eu do que para a exibição social e a busca de status.

A dissociação do sujeito e a perda de suportes sociais e éticos, somadas ao modo narcísico de ser, criam as condições para a intolerância à diferença, e o outro é visto não como parceiro ou aliado, mas como ameaça.

O individualismo, que nasceu com o modernismo, na contemporaneidade faz seu engrandecimento narcísico.

Webnarcisismo

Na atualidade, ficamos presos na hipertrofia e deformação do eu (precisamos a todo custo ser
observados). Existe, no entanto, um grande vazio existencial.

Tornamo-nos alienados, cegos, insensatos e ignorantes de nossas raízes. Proclamamos, de forma audaciosa, porém falsa, que “não há nenhum outro Deus perante nós”.

Esse eu grandioso, hipertrofiado, é o Narciso deformado, paralisado e olhando compulsivamente para o espelho, somente enxergando a si mesmo. Os outros tornam-se ecos e reverberações da sua própria imagem. Narciso hipertrofiado, afogado em sua autocontemplação egoísta, acha feio o que não é espelho, como diz Caetano Veloso.

Nessa vertente, Lasch (1983) dá aos tempos atuais o nome de “cultura narcísica”, e Debord (1997), de “sociedade do espetáculo”, ora ressaltando o individualismo, o culto ao corpo e a supervalorização dos aspectos da aparência estética, ora ressaltando o exibicionismo, a captura pela imagem e o comportamento histriônico que se realiza como espetáculo.

A forma narcísica de ser no mundo contemporâneo está associada à solidão. Estamos cada vez mais solitários, porque buscamos a ilusão de segurança como forma de controlar o que não tem controle, que é a própria vida.

Solitários, porque cada passo de autonomia que damos em relação à participação mística primitiva e instintiva com o rebanho nos afasta da segurança tão almejada, que, em termos psíquicos, poderia ser obtida por uma volta ao passado (que não existe mais) ou por uma mudança no modo de viver e na cosmovisão (que não existe ainda).

Metáfora das vitrines

Uma das ilusões criadas pelo mundo virtual é a falsa sensação de pertencimento, o nosso desejo básico de ser refletido, amado e aceito pelos outros. Essa necessidade traduz o nosso desejo de estar próximo das outras pessoas, compartilhar das suas alegrias, construir amizades sólidas, obtendo um bom relacionamento interpessoal.

A internet pode parecer um continente de pertencimento para as pessoas. Podemos acreditar que todo o aparato tecnológico que nos cerca é capaz de suprir cada uma de nossas necessidades e que por estarmos “conectados” jamais estaremos sozinhos.

Preferimos varrer nossas próprias neuroses para debaixo do tapete, para não termos que encarar o mundo real, que se insurge como uma ameaça à nossa aparente comodidade.

O que criamos no espaço virtual nada mais é do que uma vitrine, através da qual esperamos ser reconhecidos, ainda que essa seja apenas uma montagem forjada por nós. (Para ler esta matéria na íntegra, clique aqui e adquira já a edição nº 148 da revista psique, pág. 35-51)

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