Sincronicidade entre Nise e Jung

O trabalho da médica e do psiquiatra teve contribuição mútua como um importante passo para que novos pesquisadores buscassem respostas científicas para as semelhanças, psíquicas e artísticas

Por Daniel Lascani* | Adaptação web Tayla Carolina

O encontro da médica psiquiatra brasileira dra. Nise da Silveira (1905-1999) com o psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), certamente, é um dos maiores acontecimentos da história da Psicologia.

As semelhanças percebidas entre os trabalhos realizados por seus pacientes, no campo das artes, revelaram ao mundo um exemplo do fenômeno, denominado por Jung, como sincronicidade, conforme ele apresentou em um de seus livros, que foi titulado com esse nome.

Sobretudo esse caso ocorrido entre a dra. Nise e o dr. Jung, ou seja, entre esses dois grandes nomes da Psiquiatria, infere que, nos tempos atuais, não apenas a Psicologia, mas também outras ciências, estude tal fenômeno.

Muito antes de conhecer Carl G. Jung, Nise da Silveira já era uma médica genial. Foi uma das primeiras mulheres médicas do Brasil. Todavia, destacou-se por suas metodologias inovadoras de trabalho, voltadas para o campo da arte.

Em sua posição, ignorou tratamentos com eletrochoques, lobotomias e outras formas violentas de tratamento praticadas naquela época, para cuidar de seus pacientes, de maneira alternativa, com o uso de desenhos, esculturas e pinturas.

Dessa forma, inovou e quebrou paradigmas com uma nova prática de terapia ocupacional que, além de ter mudado a vida de milhares de internos, revolucionou a relação entre paciente e médico.

 

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Nise da Silveira

Em pouco tempo, Nise transformou o hospital psiquiátrico em que trabalhava em um verdadeiro ateliê de arte, trazendo-lhe uma energia inovadora nunca vista antes. Sua linha de terapia revelou verdadeiros artistas, inclusive alguns deles reconhecidos internacionalmente, tal como o pintor Fernando Diniz, que foi seu paciente.

Sua façanha iniciou-se a partir de 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II , no bairro Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Após alguns anos de muita resistência aos métodos violentos, Nise conseguiu fundar, nessa mesma instituição, a Sessão de Terapêutica Ocupacional.

Posteriormente, o mesmo trabalho revolucionário, com as mesmas práticas, também se repetiu na Casa das Palmeiras, em Botafogo, também no Rio. Dessa vez, com foco em reabilitação de antigos pacientes, através da mesma metodologia, visando o desenvolvimento da livre expressão artística e da criatividade.

Esse trabalho de Nise da Silveira, antes mesmo de sua segunda fase, na Casa das Palmeiras, resultou na fundação, em 1952, do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, justamente no bairro Engenho de Dentro, onde tudo começou.

Atualmente, o museu apresenta milhares de obras de arte que foram produzidas em todo o período em que seus pacientes trabalharam com pinturas e modelagens. A soma de todos esses trabalhos gerou um acervo nunca visto e imaginado anteriormente na história da Psiquiatria. Muitas dessas obras são mandalas, em formatos variados. Fato este que levou Nise da Silveira a conhecer Carl Gustav Jung.

 

*Daniel Lascani é jornalista, publicitário, pós-graduado em Psicologia Analítica (PUC/Rio); leader coach e self
coach do IBC – Instituto Brasileiro de Coaching; coautor do livro O Impacto do Coaching no Dia a Dia.

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Psique – Ed. 147