Psiquiatra perde o filho por suicídio e se especializa no assunto.

Maria Cristina De Stefano, médica psiquiatra, perdeu o filho por suicídio em 2012 e se especializou nessa maneira de traduzir o sofrimento humano em uma forma de terminar com a própria vida

Por Lucas Vasques / Adaptação Web Rachel de Brito

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Recentemente, três estudantes de colégios privados de São Paulo se suicidaram e o assunto despertou a atenção de pais, educadores e profissionais da área de saúde e logo suscitou a seguinte questão: é possível dizer que há uma tendência ao suicídio entre jovens?

Formada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e psiquiatra, Maria Cristina De Stefano é uma especialista no tema e diz que o suicídio não escolhe classe social. “Temos milhares de casos não divulgados, que acontecem silenciosamente. É preciso ter um olhar atento com todos os que estão em volta, observar comportamentos em diferentes ambientes, além de orientar a como lidar com frustrações, estimular vínculos afetivos e manter um diálogo”, reflete.

Maria Cristina, que também foi médica sanitarista e professora de Saúde Pública na Faculdade de Medicina de Jundiaí, perdeu o filho Felipe De Stefano Balster por suicídio, em 2012. Desde então, tem trabalhado na prevenção por meio de palestras para especialistas da área de saúde, estudantes universitários e membros de entidades. Além das palestras, a psiquiatra lançou a segunda edição ilustrada do livro Suicídio: a Epidemia Calada, Editora Ofício das Palavras, que traz os últimos três anos do diário do filho.

os índices de suicídio de crianças e adolescentes no Brasil têm crescido nas últimas décadas. De 2000 a 2015, aumentaram 65% entre 10 e 14 anos e 45% entre 15 e 19 anos. Ou seja, mais do que a média de 40% da população, que já é alta. quais os fatores que levam a isso?

 

Os índices de suicídio de crianças e adolescentes no Brasil têm crescido nas últimas décadas. De 2000 a 2015, aumentaram 65% entre 10 e 14 anos e 45% entre 15 e 19 anos. Ou seja, mais do que a média de 40% da população, que já é alta. Quais os fatores que levam a isso?

Maria cristina: as ocorrências suicidas e as tentativas estão sendo mais bem avaliadas por serem de notificação compulsória pelos serviços de saúde e através dos registros legais. Mesmo assim, estima-se que há subnotificação em cerca de 40% das ocorrências – tanto pela não notificação quanto por acidentes que não foram identificados como atos suicidas. Independentemente da faixa etária, segundo a organização mundial da saúde (OMS), ocorre um suicídio a cada 40 minutos no Brasil e a cada 40 segundos no mundo. Nessas fases da infância e adolescência há dificuldade de identificar os sinais, há a resistência familiar e, consequentemente, a dificuldade de diagnóstico. O suicídio é multifatorial – não há apenas um motivo, situação etc. –, sendo decorrente de doenças mentais graves associadas a fatores sociais, pessoais, financeiros e até culturais.

 

Recentemente, três estudantes de colégios privados de elite de São Paulo se suicidaram. Mesmo sabendo que é difícil analisar os casos especificamente, a senhora acredita que é possível dizer que há uma tendência de suicídio entre jovens?

Maria Cristina: O suicídio não escolhe classe social e é preciso reforçar que decorre de doenças mentais graves e variadas, conhecidas por sua epidemiologia. Temos milhares de casos não divulgados, que acontecem silenciosamente. É preciso ter um olhar atento com todos os que estão em volta, observar comportamentos em diferentes ambientes – na escola, em casa etc. –, além de orientar como lidar com frustrações, estimular vínculos afetivos e manter um diálogo.

 

Ainda em relação aos casos dos suicídios dos colégios, informações iniciais davam conta de que as ocorrências tinham relação com jogos e aplicativos que circulam nas redes sociais. O que faz com que esses jogos e aplicativos tenham tanta influência no comportamento desses jovens, a ponto de levá-los Ao suicídio?

Maria Cristina: Durante toda a adolescência ocorrem alterações neurológicas importantes, preparando o sistema nervoso central (SNC) para a maturidade psíquica. Essas modificações decorrem de alterações na forma, no número e nas sinapses, daí ser chamada de “poda neuronal”. Esse nome vem do mesmo hábito de podar as árvores durante o inverno para que novos galhos, flores e frutas brotem na primavera/verão. Os neurônios que vão se desenvolvendo permanecerão ativos para todo o restante da vida psíquica. Nessa fase, há extrema vulnerabilidade das funções neurológicas, daí tantos padecimentos da adolescência, implementados também por alterações hormonais concomitantes. Esse quadro já foi definido como síndrome da adolescência normal. Por mais de 10 ou 15 anos desse período, qualquer exposição a traumas, exigências abusivas, doenças, acidentes ou diversas ocorrências com possível dano psíquico pode levar a doenças psiquiátricas, no momento ou no futuro. O acesso à internet em busca de diversão, das mais inocentes até as mais perversas, pode sim causar impactos ao cérebro em evolução, principalmente se há imaturidade nos mecanismos de autoproteção, falha na identificação de riscos, sugestionabilidade, agressividade latente, alterações da personalidade, doenças familiares, entre as mais variadas… Devemos alertar que estamos vivendo numa cultura competitiva, que se utiliza muito das diversas formas de agressividade e da violência para fazer prevalecer os seus valores. O jovem pouco tem consciência dessa situação subjetiva. Pode se sentir inadequado, frágil ou mesmo incompetente para o enfreamento lúcido do que se apresenta como “normal”, e a morte pode ser uma saída para a desistência do enfrentamento, sentida como fracasso, frustração de si mesmo, da família e da sociedade. Normal não é sinônimo de comum.

 

Como explicar a polêmica do jogo Ba­leia Azul, que estimulava crianças e adolescentes acometerem suicídio?

Maria Cristina: Baleia Azul não era só um jogo, mas um desafio para a morte.

 

Essas ocorrências levaram os colé­gios a promover atividades com alu­nos e pais, com o objetivo de oferecer orientações sobre o tema. Acredita que a escola tenha um papel importante nesse processo? Por quê?

Maria Cristina: As questões mais graves que ocorrem na saúde social demandam grande empenho em informação para iniciar ações que sejam efetivas em prevenção, controle e atendimento rápido e controle de ocorrências patológicas. A humanidade sempre está exposta a epidemias e endemias, de maior ou menor gravidade. A discussão conjunta de mecanismos de prevenção de danos é um direito da sociedade e do cidadão, por isso são essenciais informações éticas, idôneas e responsáveis sobre a educação para a saúde, como já fizemos com a Aids, com a dengue e seus correlatos, com a tuberculose, com a paralisia infantil, doenças hoje “contidas” não só com vacinas, mas com a divulgação do como e do porquê vacinar.

 

Aliás, esses fatos podem fazer as escolas repensarem suas práticas, uma vez que o suicídio, historicamente, foi um tema considerado tabu e, por isso, ignorado em sala de aula?

Maria Cristina: Convivemos com diversos temas difíceis, pouco ventilados, e o pior deles é a morte. No mundo ocidental é muito desagradável e constrangedor
conversar sobre a morte, como se por si só já estivéssemos em risco. Mas, afinal, de qual morte estamos falando? Existem muitas delas! Morte morrida, morte matada, morte acidental, morte por velhice, morte por amor, morte por homicídio de si mesmo, que pode ser a pior delas. O tema não é tabu apenas em sala de aula, mas em qualquer ambiente em que tenhamos seres humanos. Existe um curso de pós-graduação em Suicidologia e não é só para profissionais de saúde, mas para todos que estiverem interessados ou atuam com a morte por suicídio – ou seja, são sociólogos, assistentes sociais, antropólogos, militares.

Para ler esta matéria na íntegra, adquira já a edição 148 da revista psique

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