Psicoterapia funciona melhor pela manhã

Níveis altos do cortisol são fator importante para a superação de medos irracionais, e com a elevação natural desse hormônio pela manhã, é mais fácil vencer a ansiedade ao se expor a uma situação temida

Por Marco Callegaro* | Adaptação web Tayla Carolina

Imagine um coelho sedento que para em um riacho para sorver alguns goles de água e, quando menos espera, recebe um bote de uma raposa. Desesperado, o coelho corre e consegue fugir do predador. Seu coração dispara freneticamente e seu corpo é sacudido pela resposta de luta ou fuga, que nesse caso salvou sua vida ao mobilizar um conjunto de reações que são adaptativas em emergências.

Agora imagine o mesmo coelho ao beber água novamente nesse riacho. Dessa vez, ele já foi alertado pela sua memória de que existe perigo de vida e que é melhor estar em alerta. Essa é uma função importante do aprendizado e memória, nos alertar sobre riscos. Por essa razão, quando temos reações emocionais fortes, é importante lembrar do que aconteceu para evitar os perigos e sobreviver melhor.

De forma geral, o aprendizado e memória em eventos de emoção são aumentados, em função dos hormônios que são liberados sob estresse. Quando o nível emocional é muito elevado, como em situações de estresse traumático, pode ocorrer uma reação contrária, com diminuição da memória consciente e aumento da memória inconsciente.

Os hormônios de estresse em grandes quantidades, em especial o cortisol, podem reduzir a atividade do hipocampo, estrutura do cérebro que registra memórias conscientes, e aumentar a atividade da amígdala, que armazena memórias emocionais inconscientes. Faz sentido, pois as memórias conscientes do trauma são devastadoras, enquanto as memórias inconscientes não produzem tanto sofrimento mental, mas fazem o organismo se comportar de forma adaptativa.

 

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Em situações de emoção normal, que não seja traumática, o cortisol facilita a formação de memórias e leva o sujeito a aprender mais facilmente. Nesse caso, se o aprendizado é corretivo, isto é, visa reaprender uma nova resposta perante uma circunstância encontrada anteriormente, o cortisol também facilita a aquisição do novo aprendizado.

No caso de pacientes que têm transtornos de ansiedade, uma das técnicas mais eficazes é a terapia de exposição, na qual o sujeito é levado a permanecer em contato com um estímulo inofensivo que aprendeu a temer até que seu cérebro registre que aquilo não é de fato perigoso.

A exposição é usada no mundo todo e considerada uma das mais eficazes técnicas de psicoterapia. Como exemplo, podemos citar uma pessoa que tem fobia de avião (aviofobia) e que pode pensar que vai perder o controle, ter falta de ar e uma ataque de ansiedade intolerável.

Permanecendo dentro do avião por um tempo prolongado, a pessoa vai aprendendo que o que teme não ocorre e gradualmente o nível da ansiedade começa a cair até normalizar. O que acontece é um reaprendizado, ou aprendizado corretivo, de que aquele contexto ou ambiente não é, na realidade, perigoso.

 

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*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).