Um livro sobre perdão e redenção

Em O caçador de pipas, dois meninos vivenciam uma relação praticamente de servo e senhor, mas que acaba enveredando por um caminho de vergonha e reparação

Por Carlos São Paulo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Dois garotos, envolvidos numa relação de servo e senhor, experimentaram a falta do feminino materno em suas vidas. Esses meninos viviam em Cabul, uma sociedade estratificada por etnias, como Pashtun e Hazara. A primeira era uma classe valorizada socialmente, a qual pertencia Amir e todos os outros patrões. Enquanto na segunda, a de Hassan, estavam todos os servos. Essa hierarquia social não impediu que os dois meninos vivessem irmanados. Mas essa situação despertava o ódio de outro garoto, Assef, também um Pasthun. Essa história, O caçador de pipas, é narrada na primeira pessoa pelo personagem principal, Amir, que faz o leitor experimentar os reveses das emoções que participam de nossas vidas, possivelmente, na busca de uma evolução do ser. Amir inicia a narrativa com a frase: “Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975”.

 

Hassan, guiado pela intuição, era um exímio caçador de pipas. Ele servia a Amir como a um adorado senhor. Foi esse nome, “Amir”, a primeira palavra balbuciada pelo garoto quando começou a falar. No entanto, Amir sentia que o amor de seu pai era pela coragem demonstrada por Hassan e, como Caim, invejava essa condição do irmão de leite. Chamamos assim, porque ambos perderam suas mães e mamaram em uma mesma ama de leite. Amir, no entanto, filho do patrão, em muitos momentos rompia a barreira das diferenças e incluía Hassan como a um irmão, na condição de companheiro de traquinagens.

 

Os dois meninos não puderam crescer juntos. Um episódio que acontecera pôs à prova a capacidade de Amir suportar a emoção da vergonha em se perceber um anti-herói. Houve um campeonato de pipas e Amir, com a ajuda de Hassan, consegue ganhar o concurso. Isso deixou o seu pai muito orgulhoso do filho. O caçador de pipas, Hassan, vai buscá-la e lhes diz: “Por você, faria isso mil vezes!”. O troféu, uma pipa azul. No caminho, é interceptado por três garotos (um deles o Assef) que lhe querem tomar o prêmio. Ao resistir, Hassan é imobilizado e violentado sexualmente por Assef sob a observação covarde e oculta de Amir. Foi essa experiência de assistir ao martírio do outro que inundou Amir de vergonha por si próprio.

 

A vergonha é, antes de tudo, uma emoção reguladora do comportamento humano. No entanto, ao se perceber tão feio por dentro, Amir não suportou esse sentimento e enveredou por um caminho perverso, que causou grande sofrimento ao companheiro irmão. Escondeu um relógio que ganhara como presente de aniversário e acusou Hassan de tê-lo roubado. Este, em seu amor incondicional, confirmou para não deixá-lo mal com o pai. A partir desse episódio, Hassan teve que ir embora. Amir cresceu sem a companhia de Hassan. Foi para a América com o pai no momento em que a União Soviética invadia o Afeganistão. Em suas palavras: “Nos Estados Unidos era diferente. Aqui era como um rio, correndo, sem pensar no passado. Eu podia entrar nesse rio, deixar os meus pecados mergulhados lá no fundo, permitir que a água me levasse para algum lugar ao longe. Algum lugar onde não houvesse fantasmas, nem recordações, nem pecados”. Ou como diz Rubem Alves, “longe do outro é possível amá-lo. Na distância ele não perturba sua bela imagem. Ela está no retrato, como sempre esteve, congelada eternamente”.

 

O que fazia Hassan amar dessa forma? O que havia em Amir que completava Hassan? A condição especial de filho daquele que também era seu pai e ele não sabia? A história revela que os dois rapazes eram irmãos biológicos. Seria o seu lábio leporino, que o deixava incompleto, marca do destino? Que destino esse que faz de um ser alguém que sofre pelo outro por admirá-lo tanto? A paixão é uma imagem idealizada que escapou de nossa alma e foi se afixar em um outro próximo. Nossa busca ilusória por essa parte perdida nos deixa reféns desse outro.

 

Amir vive um casamento sem filhos e se torna um escritor. Ao voltar para o Afeganistão, fica sabendo que Hassan era seu irmão biológico por parte de pai e que este se casara e teve um filho, Sohrab. O Talibã matara os pais de Sohrab e ele foi levado para um orfanato. O destino lhe traz o passado. Descobre que Sohrab vive a clausura e os abusos sexuais do oficial Talibã Assef. Esse momento dá a oportunidade de Amir reparar seus erros do passado e, com coragem, enfrentar Assef, machucando-se bastante. Porém, desta vez se machuca fisicamente e não como antes, com grandes feridas psíquicas, muito mais difíceis de cicatrizar. Teve a ajuda de Sohrab, habilidoso com o estilingue, e consegue acertar o olho de Assef e, com isso, facilitar a fuga dos dois. Sob a influência de figuras amigas, consegue fazer adoção do menino e traz para o seu casamento o filho de Hassan, agora seu filho e sobrinho. A vida lhe permitiu essa reparação. Ele diz: “(…) fiquei imaginando se era assim que brotava o perdão, não com as fanfarras da epifania, mas com a dor juntando as suas coisas, fazendo as suas trouxas e indo embora, sorrateira, no meio da noite”.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 89

Adaptado do texto “Quando brota o perdão”

*Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. www.ijba.com.br