Os saraus como espaços de cultivo da alma e encantamento

Os saraus são um fenômeno sociocultural que atravessa gerações, buscando exaltar a liberdade e a fraternidade humana

Por Thiago Domingues / Adaptação Web Rachel de Brito Barbosa

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Captando os sinais do empobrecimento da vida interior do homem contemporâneo, o suíço Carl Gustav Jung afirma que a readaptação da existência humana a novas demandas éticas e existenciais deve ser baseada em uma visão de mundo que restaure os símbolos genuínos do desenvolvimento humano (Jung, O. C., Vol. X/I § 549).

Desse modo, adotaremos o sarau como importante fenômeno sociocultural, que não se restringe à Modernidade, mas se inscreve numa história das manifestações culturais inseridas no microcotidiano das cidades com finalidade de encantá-lo, suavizá-lo, torná-lo digerível.

No Brasil, é possível destacar que a roupagem com que reconhecemos o sarau assume os contornos que o definem desde o começo do século XX, em especial a partir das renovações da Semana de Arte Moderna de 1922.

Atualmente os saraus foram ressignificados e encontram especial destaque nas periferias, atualmente com influências do movimento hip hop (do RAP em especial) e da literatura de cordel, de onde emerge a oralidade e a improvisação, assim como a inspiração para modelos não hegemônicos de publicação como os fanzines e a autopublicação.

Nestes encontros poéticos, os participantes declamam seus textos autorais (ou não) e também há espaço para outras apropriações artísticas como performances ou danças, mas o protagonismo ainda é o da palavra poética. Em São Paulo e região os mais conhecidos são os saraus da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), Suburbano Convicto, Sarau do Binho, Sarau do Lapada Poética e o Sarau do MAP (Movimento Aliança da Praça).

A compreensão da poesia

A poesia amplifica e dissolve muitas das abstrações que controlam e submetem os valores humanos ao estatuto da razão instrumental; assim ela potencializa o “espírito inconsciente da época, [compensando] a atitude da consciência, e, ao mesmo tempo, antecipa, de modo intuitivo, as modificações futuras” (Jung, O. C., Vol. X/I § 584).

Procuramos aqui a compreensão de poesia e inconsciente a partir do mesmo impulso em direção à totalidade. Acreditamos ser necessário delimitar a compreensão de inconsciente adotada por Jung, uma abordagem que nos instrumentalize a pensar cultura e alma como dimensões da mesma Anima Mundi.

Partimos de uma premissa que se faz necessário considerar: o homem, mais do que racional, é simbólico (Byington, 1988, p. 17). Se tudo que atinge a consciência, manifestando- se no campo psíquico, torna-se símbolo, podemos então dizer que é a elaboração simbólica a função estruturante do ego a partir das imagens.

Com essas linhas buscamos abordar o potencial da poesia enquanto cultivo da alma individual e reencantamento do mundo e do coletivo tal como mediados pelo sarau.

Esse potencial reencantador da poesia foi experimentado, de modos variados, em diversos tempos e eventos históricos, como irrupção do significado. O império da razão A partir da segunda metade do século XIX, com a Revolução Industrial, tem-se um novo modelo de sociedade e uma nova maneira de conceber o mundo e as relações.

O império da razão especulativa, a vertigem dos maneirismos burocráticos e os demais “subprodutos” do progresso mecânico penetraram em todos os poros da subjetividade moderna. Os sistemas secundários, os aparelhos ideológicos e os demais mecanismos de repressão estatal e de controle dão o contorno da vida enquanto uma densa massa homogênea, penetrando em todos os poros da subjetividade moderna como uma resposta à dificuldade de distinguir os valores pessoais autênticos e os institucionais.

À medida que a vida das pessoas se liga às instituições, organizações, formas de produção, subjetivação e consumo, a vida humana passa a ser obrigada a desobstruir e superar esses valores inautênticos a fim de redescobrir os valores humanos e sociais (Fromm, 1974, p. 73). Entretanto, a partir das contribuições de Jung, foi possível estabelecer condições prospectivas de uma nova visão de mundo, uma cosmogonia que ofereça sentido existencial ao homem moderno, um mito que preencha de esperança uma civilização, como a nossa, que perdeu seu senso de propósito ( Jaffe, 2002, p. 15). Cultura e sociedade A consideração da noção de Anima Mundi é essencial para falarmos dos saraus, já que ela possibilita, antes de tudo, a compreensão contínua (e inseparável) de arte, cultura e sociedade.

A Anima Mundi aponta para a “alma de cada coisa, as coisas da natureza dadas por Deus e as coisas da rua feitas pelo homem” (Hillman, 1993, p. 14), não privilegiando o mundo natural em detrimento do cultural.

Concordamos com James Hillman quando afirma que “a beleza é uma necessidade epistemológica; aisthesis é como conhecemos o mundo. E Afrodite é a sedução, a nudez das coisas como elas se revelam para a imaginação sensual” (idem, p. 21). Como ele nos lembra, é essencial despertarmos para a noção de Aisthesis, uma maneira criativa de nos relacionarmos com o mundo e despertar novamente as emoções alienadas, conduzindo nossas reações estéticas a partir da beleza, do espanto, e ultrapassando as defesas racionais pelo trabalho invisível de criar alma no mundo (Hillman, 1993, p. 74).

A partir dessa visão engajada numa afirmação da alma presente e atuante em todas as coisas e, por sua ativação por meio da poesia, da recriação de um mundo almado, um mundo psicológico, acredito podermos considerar os saraus enquanto manifestações que surgem como espaços de diálogo advindos do interior (da subjetividade) e do exterior (das demandas do meio ambiente) da psique individual e coletiva, a partir da possibilidade concreta de comunidades poéticas estáveis ou transitórias atuarem no sentido da recondução do mundo a sua alma.

Se os poetas foram expulsos da pólis por representarem uma ameaça a seus valores, como vemos em Platão e Nietzsche, não estariam os poetas mais uma vez retornando à polis a fim de tencionar o esgotamento de sentido dos paradigmas unilaterais, aqueles causadores das dores do mundo?

Não estariam os poetas entre os principais agentes a circular entre as polaridades do cotidiano, a fim de nos lembrarem do compromisso ético do fazer-alma, que por muitas razões abandonamos?

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