O que a vida espera de nós

A busca por sentido é uma necessidade fundamentalmente humana e pode estar relacionada a muitas aflições que hoje lemos como transtornos

Por Michele Müller | Adaptação web Tayla Carolina

Muitos gostam de frequentar academias e enxergam vantagens nas ergométricas e esteiras. Eu sempre vou preferir uma caminhada pelo bairro.

Os benefícios físicos vêm de bônus, raramente são os principais motivadores. É um exercício, acima de tudo, de atenção ao mundo de fora; de admiração à vida que nos cerca e que as ocupações e preocupações não nos deixam perceber.

As caminhadas são recompensadas com cheiros das plantas e de gramados recém-cortados, frutas colhidas do pé, cantos de pássaros, cumprimentos de vizinhos – humanos e caninos – e algumas boas histórias.

Sem falar nos registros, com a câmera do celular, de cores, cenas e fotogênicos gatos que nos espiam, desconfiados, de alguns abrigos improváveis – como a branquinha aninhada em uma casinha de cachorro, no terreno de uma casa desocupada.

Quando me agachei para fazer a foto, fui surpreendida pela simpatia de um senhor que vinha trazer comida para ela. Foi então que descobri que se tratava de uma fêmea, particularmente arisca, que ele conseguiu conquistar depois de muito tempo de convivência.

Revelou que a pequena morada de telhado azul, que havia comprado especialmente para a gatinha, pode ser puxada para perto da grade por um sistema de roldanas que inventou.

Mas a parte mais interessante da visita vem sempre depois de saciada a fome da amiguinha felina. É quando ele estende um pano branco no chão e se deita no meio da calçada para brincar e acariciar a Mimi. “Ela precisa disso”, explicou.

Ela e os outros gatos que, mesmo vivendo na rua e dormindo em casinhas em terrenos desocupados, tiveram o privilégio de serem adotados por esse mecânico de coração grande, que divide a casa com 11 cachorros tirados da rua.

Os animais que estão sob sua responsabilidade lhe dão trabalho e lhe trazem preocupação: a principal delas, confessou, é que na sua falta voltem a viver na rua, correndo o risco de serem maltratados ou de passarem fome. Mas eles não são os únicos a se beneficiar dessa relação: o homem precisa dos afagos da gatinha assim como ela precisa dele.

A retribuição oferecida pelos bichos pode parecer insignificante para muitos, mas para aquele senhor é o propósito de sair de casa em um dia chuvoso, de deitar-se na calçada com a disposição de uma criança e de voltar com a sensação de missão cumprida.

Não é movido por necessidade financeira, autocobranças ou pressões externas, mas por uma busca por sentido. Algo que, para o psicanalista e filósofo alemão Erich Fromm, está no fundamento da condição humana, apesar de muitas vezes ser reprimido, ao custo do que podemos chamar de mente saudável.

Uma das formas de reprimir essa tendência é seguir compulsivamente o que ele chama de “rotina da fuga”. Décadas depois de escritas suas obras, o consumo e a produtividade continuam sendo algumas das principais rotas dessa fuga, facilitada recentemente pelo sedutor universo virtual que carregamos nos bolsos.

Em Modern Man’s Pathology of Normalcy (“A patologia da normalidade do homem moderno”), escreve: “Nós não conseguimos suportar viver apenas saciando a fome e a sede sem dar um sentido à existência. Temos que encontrar alguma resposta ao mistério da vida e essa resposta deve ser tanto teórica como prática.

Refiro-me ao fato de precisarmos de uma estrutura referencial que nos dê orientação, que de alguma forma torne significativo o processo da vida e nossa posição dentro dele”.

 

*Michele Müller é jornalista, pesquisadora, especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site www.michelemuller.com.br

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Psique – Ed. 147