Educação e saúde mental

A demasiada tolerância familiar na educação das crianças se faz sentir não apenas socialmente, mas de modo geral na sua formação como pessoa

Por Maria Irene Maluf* | Adaptação web Tayla Carolina

“Melhor pecar pelo excesso do que pela falta”. (ditado popular)

As queixas dos adultos sobre comportamento infantil na escola e em casa não param de crescer. A precocidade das crianças em ultrapassar os limites comportamentais antes esperados na adolescência, assim como a evidente desorientação dos pais em encontrar respostas a essa e outras questões, vem criando uma geração em que as condutas infantis se transformam em inúmeros casos e, devido ao excesso de tolerância familiar, em condutas socialmente inadequadas.

Ao mesmo tempo, condutas patológicas e sérias muitas vezes se escondem e deixam de ser tratadas por profissionais, colocando vidas em perigo. Falsas teorias de que as crianças não devem ser advertidas ou limitadas em seus comportamentos se misturam com o pressuposto ingênuo de que ser livre é ser feliz, e se preparar para a autonomia futura é resultante do exercício contínuo de fazer tudo o que se deseja, desde o berço.

E sem vivenciar consequências, sem respeitar os limites, conhecer os direitos alheios, as regras sociais, as normas da escola etc. A tolerância familiar na educação influencia a maneira como a criança dirige desde cedo as suas obrigações e se prepara para assumir responsabilidades futuras.

Interfere na sua qualidade de vida e no quanto poderá ou não atingir suas potencialidades. Determina sua saúde física e mental e, resumidamente, seu bem-estar, sua tranquilidade, produtividade e felicidade. A negligência do adulto ao observar o comportamento infantil inadequado pode até deixar passar prenúncios sérios de doença mental, que poderia ser tratada e evitada.

Afinal, se nem tudo é patológico, nem tudo é também apenas evidência de temperamento forte, gênio difícil, extroversão, distratibilidade, “ele é igual ao avô” etc. Até porque esses parentes podem ter sofrido muito em suas vidas com essas questões comportamentais.

Dou como exemplo três condutas que são verdadeiras “armadilhas” e fazem com que os pais percebam que há algo errado na condução dos filhos, mas não conseguem apontar e corrigir o erro de modo racional. A primeira é a clássica reclamação sobre a escola: “Não gosto de estudar, muitas pessoas vencem na vida sem diploma!”.

Isso gera nos pais a ideia de que estão sendo injustos e que suas expectativas estão absolutamente equivocadas no que diz respeito à educação formal do filho. As crianças utilizam esses dois pressupostos para nos fazer sentir que estamos errados e elas assim se livram de suas responsabilidades. Chegar na escola sem as tarefas, burlar notas, faltar em provas são consequências imediatas desse pensamento.

 

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

 

Para ler esse texto na íntegra, compre a revista Psique – Ed. 147